Um último relatório sobre uma pandemia anunciada (em vão)

Um último relatório sobre uma pandemia anunciada (em vão)[1]

Ernesto Burgio[2]

Não é fácil fazer um resumo desses primeiros 6 longos meses de pandemia. Nosso artigo anterior “The Italian Drama” (Burgio E., 2020) procurou contextualizar a situação na Itália dentro da situação planetária, que ainda está evoluindo. No entanto, esse resumo é necessário para que não nos encontremos despreparados caso o vírus volte com altas cargas virais na Itália e no resto da Europa no final do verão ou no outono. Nos terríveis dias de março e abril, as províncias mais afetadas do norte da Itália foram Bérgamo, Brescia, Cremona, Piacenza. Infelizmente, o vírus agora ataca, em muitas áreas do planeta: Estados Unidos, Brasil, México, Índia. Colocar a pandemia no contexto, significa examinar historicamente os eventos anteriores e depois focalizar as recentes pandemias. O primeiro grande erro foi não entender que o aparecimento de um vírus pandêmico é um evento dramático a ser estudado de acordo com coordenadas bem definidas, conhecidas há mais de um século. Isto foi esquecido por muitos cientistas famosos e especialistas.

 Tínhamos esquecido que as pandemias são dramas sazonais

 Comecemos pela história antiga. Grandes pandemias são eventos sazionais que geralmente se seguiram a tragédias: guerras, fome, desastres naturais. É importante destacar que não se tratam de eventos aleatórios, mas consequências dramáticas de grandes desequilíbrios ecológicos, biológicos e sociais.

Grandes pandemias como a Peste de Justiniano (540-542 d.C.), a peste bubônica do século XIV, mais conhecida como Peste Negra (1346-1353), as grandes epidemias de cólera do século XIX (1850-1860) e, acima de tudo, a grande endemia global devida ao mais terrível assassino biológico da história humana, o vírus da varíola.  Infelizmente, só temos relatos confusos e desprovidos de valor científico. Das crônicas dos contemporâneos dos eventos é difícil obter valor em termos biológico e sanitário. No entanto, é claro que todos esses foram eventos imprimiram uma marca permanente na consciência coletiva.

Na Idade Média, a peste bubônica do século XIV, a epidemia da Peste Negra que chocou a Europa, deixou, sem dúvida, as cicatrizes mais dramáticas. As estimativas oscilam entre 70 e 200 milhões de mortes, uma parte significativa de toda a população humana. No entanto, esses números se desvanecem em comparação com a ameaça que a varíola representava no século XX. A varíola poderia muito bem ter ceifado 200 milhões de vidas antes de ser erradicada através de uma campanha de vacinação que, de longe, é o maior sucesso da Organização Mundial da Saúde (OMS).

 A grande influenza espanhola, protótipo das pandemias modernas

 Com a grande pandemia espanhola de 1918-19 entramos na era das pandemias modernas, todas caracterizadas por um vírus que se espalhou recentemente – numa súbita adaptação para o homem a partir de uma espécie/reservatório que hospeda o vírus há milênios. Durante o século XX, as pandemias sempre foram vírus da gripe. O primeiro deles foi o H1N1/1918, chamado de gripe espanhola, um patógeno dramaticamente virulento que surgiu do reservatório natural das aves migratórias. Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados americanos exportaram o vírus para a Europa, onde ele se espalhou como um fogo selvagem. Ele ainda é lembrado como a maior pandemia moderna. Depois de matar várias centenas de milhares de pessoas no início de 1918, o vírus pareceu diminuir durante o verão, mas voltou de forma muito mais virulenta no outono e as mortes foram de dezenas de milhões em poucos meses. Chocantemente, estas mortes pandêmicas foram quatro vezes maiores que as da Grande Guerra e em muito menos tempo.

Também é importante lembrar que o H1N1 tem permanecido endêmico na espécie humana desde então. Esse virus foi substituído, em 1957, pelo H2N2 da gripe asiática e em 1968 pelo H3N2 da gripe de Hong Kong. O virus parece ter ressurgido de um laboratório russo nos anos 70, numa forma felizmente não muito letal e, desde então, juntamente com o H3N2, circula o globo causando epidemias sazonais, geralmente não particularmente violentas, causando, no entanto, dezenas de milhares de mortes no mundo todo a cada ano.

Na história recente, devemos lembrar que de 1997 a 2005 vários subtipos de vírus da gripe fizeram o temido alastramento – de aves migrantes e sedentárias ao homem, levando a centenas de mortes. Eles alarmaram os virologistas por causa de sua alta virulência, mas não foram muito contagiosos, pois não fizeram as mutações necessárias para envolver o trato respiratório humano. Infelizmente, o novo SARS-CoV-2 conseguiu estas mutações em poucos meses, provavelmente no outono do ano passado, na província de Hubei, na China.

Os primeiros avisos durante esses anos, relativos a uma possível nova pandemia de vírus da gripe, tiveram dois efeitos: por um lado, levaram ao aprofundamento da pesquisa nesta área relativamente negligenciada durante décadas; por outro lado, geraram em muitos a crença errônea de que eram “falsos alarmes”. Um fato que seria decisivo para a confusão que surgiu recentemente neste campo.

O “novo reino”: coronavírus e morcegos

 Simultaneamente aos alarmes da gripe aviária, um novo Coronavírus apareceu na China em 2002, capaz de causar uma pneumonia letal em centenas de sujeitos, essencialmente médicos e enfermeiros. Foi chamado SARS (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave). Neste caso, houve um alerta precoce de pandemia, mas felizmente o vírus mostrou-se instável e incapaz de se transformar em uma verdadeira pandemia, apesar de ser muito contagioso e virulento.

Desde então, esses Coronavírus, provenientes de uma nova espécie de reservatório, o morcego, têm sido objeto de muitos estudos, pois o morcego representa, por muitas razões, uma espécie/reservatório muito mais perigosa do que as populações aviárias, que têm sido o reservatório dos vírus da gripe por milênios, essencialmente por duas razões. Primeiro de tudo, porque o morcego é um mamífero, muito mais próximo de nós em nível filogenético.  Isto facilita a adaptação evolutiva de seus vírus aos receptores de nossas vias aéreas e sua capacidade de se espalhar em nossa espécie e atacá-la (ou seja, de fazer o fatídico derrame). Em segundo lugar, devido às graves alterações eco-sistêmicas e urbanas causadas pelo homem nas últimas décadas, os grandes morcegos típicos do sudeste asiático vivem agora em estreito contato com os habitantes dos grandes entornos urbanos e isso facilita muito a troca de vírus com outras espécies animais e os eventos de recombinação genética entre diferentes linhagens virais, o que facilita sua evolução adaptativa.

Uma pandemia anunciada há muito tempo e em vão

 Neste ponto, devemos enfatizar que a atual é uma pandemia há muito anunciada: primeiro de tudo porque a primeira SARS, a de 2002-2003, foi imediatamente reconhecida como um episódio perigoso, devido ao surgimento de um novo Coronavírus, totalmente desconhecido de nosso sistema imunológico e, portanto, potencialmente pandêmico. Dez anos depois, em 2012, um segundo Coronavírus causou uma epidemia de pequeno porte, mas igualmente perigosa, dada a alta letalidade do novo morcego Coronavírus, o MERS-CoV. Finalmente, nos últimos anos, os “caçadores de vírus” descobriram nas cavernas de Yunnan, na China, numerosos coronavírus morcego, muito semelhantes aos da SARS, capazes de infectar humanos (Qyu, 2020). Como resultado, seguiram-se muitas experiências destinadas a modificar geneticamente esses vírus para melhor estudar seu potencial infeccioso e patogênico e, inevitavelmente, críticas e pedidos violentos de moratória contra estas pesquisas objetivamente perigosas (Butler, 2015). Isto se tornou um problema complexo porque uma hipotética moratória só poderia ser aplicada às pesquisas realizadas nos laboratórios principais (com segurança e controles internacionais), mas não a qualquer manipulação genética realizada em laboratórios muito menos seguros e não controlados. Por causa disso, toda a comunidade de cientistas neste campo vem pedindo há anos para se preparar para o pior. Contudo, como veremos, apenas os países asiáticos – que nas últimas duas décadas enfrentaram os alarmes pré-pandêmicos relacionados à gripe aviária e à SARS – se prepararam adequadamente para enfrentar a emergência, enquanto os países ocidentais, em geral, se viram completamente despreparados para a pandemia anunciada.

 Primeira fase: os países asiáticos mostram estar preparados

 Agora podemos tentar entender melhor a trajetória tomada pelo novo vírus nos primeiros meses de sua propagação entre os seres humanos e fazer um balanço da pandemia em andamento. Um rápido olhar sobre uma trama cronológica relativa aos eventos mais salientes da primeira fase pandêmica (Fig. 1) oferece dados importantes.

Indiscutivelmente, os chineses entenderam, pelo menos desde o início de dezembro de 2019, o que estava acontecendo. Entretanto, os primeiros relatórios oficiais sobre casos de pneumonia provavelmente associados a um novo Coronavírus e as primeiras medidas restritivas não chegaram ao Ocidente até o final de 2019.

Em 31 de dezembro, o CDC e a OMS lançaram um alerta precoce, sobre alguns casos suspeitos, oriundos de um mercado de alimentos perto da cidade de Wuhan, na região de Hubei. Em 9 de janeiro, a OMS declarou que (como temido) um novo Coronavírus estava se espalhando e os cientistas chineses publicaram toda a sequência genética do mesmo em 12 de janeiro (XinuanNet, 2020), logo seguidos pelo Institut Pasteur (Instituto Pasteur, 2020) e outros prestigiosos laboratórios em todo o mundo (Instituto Doherty, 2020).

Em poucos dias, alguns casos de pneumonia devido ao novo Coronavirus, inicialmente chamado 2019-nCoV, foram relatados na Tailândia e depois no Japão, Coréia do Sul, Taiwan. A mídia ao redor do mundo começou a espalhar histórias dramáticas e imagens alarmantes. Os chineses criaram em tempo recorde corredores de saúde alternativos e novos hospitais exclusivamente para o diagnóstico, monitoramento e isolamento de casos. Enquanto isso, outros países asiáticos também estavam se preparando para o pior. Em poucos dias, o vírus apareceu não apenas em Hong Kong, Camboja e Sri Lanka, mas também no Nepal e depois na França, Alemanha, Canadá e Austrália. Isto era completamente previsível, dado que em 2020 um vírus pandêmico viaja em vôos transcontinentais e pode facilmente se espalhar pelo mundo em 48 horas.

Ainda é difícil entender porque os países ocidentais subestimaram esses eventos.

Países ocidentais subestimam o problema

Na Itália, em 31 de janeiro, o anúncio do perigoso surto apareceu na “Gazzetta della Repubblica”. Todas as regiões da Itália foram convocadas a se preparar para uma possível pandemia. De fato, passariam três semanas antes que as primeiras medidas de contenção fossem implementadas, tanto da OMS (que só em março teria declarado o alarme pandêmico), quanto de especialistas em doenças infecciosas, pneumologistas e outros especialistas, que tendiam a assegurar que os sistemas de saúde dos países ocidentais poderiam enfrentar uma emergência sanitária como a esperada (o que se comprovou infundado).

Os líderes políticos de alguns países, em particular anglo-americanos, até declararam que não faria sentido implementar estratégias de contenção como as implementadas pelos países asiáticos, que desacelerariam e prejudicariam suas economias. Esta crença errônea de que seria uma epidemia como muitas outras causou um certo número de mortes entre os mais frágeis e idosos, e permitiu que ela se espalhasse pelos países desenvolvidos.

Essas foram previsões incorretas. O vírus se espalharia essencialmente nos países ocidentais e nas áreas mais desenvolvidas economicamente, atingindo os estratos dessas sociedades que viajam mais e têm relações mais diretas em lugares fechados e lotados, onde a infecção se espalha mais facilmente.

A Itália foi o primeiro dos países ocidentais a ser atingido, especialmente nas regiões ricas do Norte e precisamente nas áreas industriais e comerciais mais avançadas, conectadas com o resto do mundo e mais poluídas. Em 21 e 22 de fevereiro foram descobertos os dois primeiros surtos no Vêneto e na Lombardia: a reação completamente diferente das instituições de saúde política das duas regiões teve consequências significativas e potencialmente esclarecedoras. A região do Veneto rapidamente colocou em prática, a partir da chamada “zona vermelha”, uma série de estratégias de contenção e monitoramento de casos sintomáticos e seus contatos, fechando escolas e universidades, bloqueando o Carnaval de Veneza. Estas ações reduziram a propagação do vírus e o número de mortes. Na Lombardia, ao contrário, durante mais de uma semana foi decidido não se aplicarem medidas restritivas, o que permitiu a propagação do vírus durante grandes eventos esportivos e que invadisse hospitais e asilos para idosos. As consequências foram catastróficas. Desde 15 de julho, a Lombardia tem cerca da metade das mortes de todo o país (16.790 declaradas, mas mais de 18.000 estimadas, somando 35.000 no total) e é a região que tem mais dificuldade de conter a cadeia de infecções. Uma clara demonstração de que os primeiros dias são os mais importantes para conter uma pandemia, pois se as medidas de contenção não forem implementadas imediatamente, a curva exponencial inevitável das infecções e mortes logo atinge números consideráveis e os mantém.

O mês de março foi o mais dramático da Itália (Burgio, 2020). Enquanto a contenção drástica e as contramedidas de monitoramento nos países asiáticos bloquearam a propagação do vírus em poucos meses, a Europa tornou-se o novo epicentro da pandemia e a subestimação do alarme (finalmente formalizada pela OMS) ficou imediatamente evidente. Nem ferramentas de diagnóstico, nem planos de monitoramento, nem dispositivos de proteção para os trabalhadores da saúde, nem mesmo corredores de saúde alternativos haviam sido colocados em prática.

Na China, Coréia, Japão e especialmente no Vietnã e Camboja, o número de casos e mortes em poucas semanas começou a cair drasticamente e rapidamente cessou. Afinal, somente na China a situação tinha sido inicialmente dramática, com 90.000 casos confirmados e 3.500 mortes somente na região de Hubei. No Japão e na Coréia foram anunciadas algumas dezenas de mortes, enquanto que no Camboja e no Vietnã, diante de algumas dezenas de casos, não haviam ocorrido mortes. Esses dados permanecem quase inalterados após meses, confirmando a regra relativa à importância das medidas de contenção.

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[1] Este artigo é uma tradução de um capítulo do livro (Pandemia nello scenario del capitalismo del xxi secolo. (Pandemia no cenário do capitalismo do século XXI) organizado por Alessandra Ciattini e Marco A. Pirrone, pm edizioni, varazze (sv), 2020, que está sendo publicado na Itália.

[2] ECERI (European Cancer and Environment Research Institute – Square de Meeus 38-40, 1000 Bruxelles). E-mail:  erburg@libero.it

[3] Paucisintomático é um termo técnico da medicina que significa uma pessoa com sintomas irrelevantes (Nota da tradução).

[4] China European Respiratory Journal,  2020; DOI: 10.1183 / 13993003.00562 -2020.

[5] Burgio, 2020.

[6] Ibid.

[7]  Tab.1: A: Total de casos, B: Total / mortes diárias. Os países atualmente caracterizados por um rápido aumento de casos e mortes são destacados (em negrito). Mais do que o número total de casos (afetados pela alta porcentagem de casos assintomáticos e não reconhecidos, e pelo número de testes disponíveis/performados), os dados mais significativos são aqueles referentes às mortes totais/dia. É com base neles que selecionamos os países nos quais a pandemia ainda é mais ativa.

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